Perigord: o sabor do interior da França, explorando o Dordogne e região da Nova Aquitânia
Não é o paraíso, é o Perigord, a região da França mais "raiz" que visitei e, paradoxalmente, capaz de romper qualquer estereótipo que se tenha sobre o país. Viajar por esta região é uma escolha sem erro, em termos de férias perfeitas.
Perigord ou Dordogne, uma região maravilhosa para visitar
Por algum motivo, nós, brasileiros, não costumamos nos aventurar tanto por esta região, tecnicamente e historicamente denominada Perigord, como a chamam os locais, mas conhecida por muitos, atualmente, como "Dordogne", na verdade apenas um entre seus vários rios e nome de parte da área. Nas duas vezes que estive por lá, encontrei pouquíssimos compatriotas. Talvez porque o Perigord esteja situado há pouco mais de 500 quilômetros de Paris, o que torna mais convidativo para aqueles que querem conhecer o interior da França a partir da capital, em uma primeira análise, optar por viagens mais próximas. Mas vale muito o deslocamento. E descobri, como vou relatar aqui, que Paris provavelmente não é o melhor ponto de partida para chegar a região para nós, brasileiros. Embora seja uma opção válida e não seja difícil transitar pelas estradas francesas, se você escolher se deslocar de carro pelo país.
Uma vez lá, opções turísticas não faltam. A região, departamento francês de Nova Aquitânia, é dividida em 4 partes: Perigord Vert (Verde), Perigord Blanc (Branco), Perigord Pourpre (Púrpura) e Perigod Noir (Negro). As características de cada uma variam um pouco, mas em todas há inúmeras atrações e opções para pernoite, restaurantes e agradáveis passeios às margens dos rios e em vilas medievais, algumas minúsculas e outras "cidades grandes", como Sarlat-la-Caneda, com seus menos de 10 mil habitantes ou Perigueux, com aproximadamente 30 mil habitantes e capital da região, que irremediavelmente conquistam o viajante.
Visitar o Perigord também é encontrar castelos a cada curva das estradinhas, alguns importantes para o turismo local e outros que parecem ali colocados apenas para compor um cenário que desperta em quem nelas transita uma sensação de quase irrealidade, de tão pitoresco. Cabe dizer, neste sentido, que dispor de um carro é um elemento importante para aproveitar mais a região, embora não exatamente imprescindível, já que as operadoras de turismo local dispõe de muitas excursões para as atrações a visitar. Mas as estradas são boas e fáceis de transitar (ao menos no inverno) e dirigir por elas foi uma experiência bastante agradável.
Também na região encontram-se muitos dos principais sítios arqueológicos da pré-história, com importantes museus que satisfazem os interesses tanto de sofisticados conhecedores do assunto quanto de turistas que querem apenas conhecer um pouco sobre o tema. São inúmeras as opções também para crianças, neste sentido. Lascaux, uma das principais grutas e famosa mundialmente como a "Capela Sistina da pré-história", devido a sua impressionante expressão de arte rupestre, é uma visita imperdível, e vale reservar para ela um bom tempo.
Há também opções para o turismo de aventuras que, em grande parte, acontece às margens ou no leito dos rios que o visitante vai conhecendo ao longo do roteiro. O Dordogne, o mais conhecido, mas também o Vezére, o L'Isle, o Dronne e outros. Canoagem, por exemplo, assim como trilhas, passeios de bicicleta e equitação, estão disponíveis em boa parte do ano em vários locais. Há também muitos parques, zoológicos e até um aquário, atrações imperdíveis para as crianças.
A região é famosa por sua e culinária, sendo o foie gras e as trufas os personagens principais, junto com queijos, outras iguarias a base de carne de pato (magret de canard e confit de canard, por exemplo) e doces diversos. E vinícolas, para escolher um delicioso vinho para harmonizar qualquer um destes pratos, podem ser encontradas em toda a região, oferecendo ao visitante, também neste sentido, uma ampla gama de opções, inclusive em termos de preços e estilo.
Por fim, um aspecto que me chamou imensamente a atenção é a simpatia da população local. "Bom dia" de desconhecidos ao caminhar pelas simpáticas vilas medievais era comum, muitas vezes acompanhado de sorrisos, e vivi situações até incomuns de generosidade e acolhimento ao turista, como no dia em que uma vendedora de um mercadinho local que me presenteou com alguns torrões de açúcar para que eu não tivesse que comprar o pacote inteiro, ou uma frequentadora de um restaurante me propôs (sem aceitar não como resposta) ceder sua mesa, simplesmente porque perguntei à garçonete se haviam lugares ao ar livre e o dela era um destes! Cabe dizer que me arrisco no francês e isso, sem dúvida, facilita a comunicação e abre portas. Mas os membros do grupo que não falam também não encontraram qualquer dificuldade em se fazer compreender e foram igualmente bem atendidos sempre. O inglês (diferente do que tanto se comenta em relação aos franceses, a meu ver um tanto injustamente) e até mesmo o espanhol foram amplamente utilizados.
Nas trilhas da região pela série policial de Martin Walker
Ávida leitora da série "Bruno, chefe de polícia", de Martin Walker (infelizmente apenas o primeiro livro traduzido para o português), já me sentia familiarizada com a região e íntima de cada estradinha e ponto turístico do Perigord percorrido pelo personagem, bem como conhecedora dos hábitos locais. Não poderia estar mais enganada. Claro que o simpático Bruno, policial da região e habitante de uma cidade fictícia que os leitores descobrem, após algumas pesquisas, que é baseada em uma vila que de fato existe, chamada Le Bugue, e suas peripécias, dá ao leitor um toque saboroso e convidativo do Perigord.
O autor, ele mesmo um morador da região "estrangeiro", como muitos europeus, especialmente do norte, que buscam nas cidades do Perigord um clima agradável e estilo de vida mais tranquilo, nos apresenta muitos dos elementos da cultura e culinária, com ênfase aos vinhos locais. Mas só estando por lá para ver como de fato é viver a região e degustar de sua autenticidade e singularidade.
Um roteiro possível de 7 dias pelo Perigord
Estive na região em 2013 e, desde então, sonhava em voltar. Aliás, se tivesse que escolher uma única região francesa para a ela voltar inúmeras vezes, provavelmente seria o Perigord...
Por muitos anos, portanto, planejei rever alguns dos lugares visitados em 2013 e conhecer outros e esbarrei, em muitos planejamentos de férias considerando esta possibilidade, com a dificuldade logística. Bordeaux, o aeroporto maior próximo para quem compra um vôo vindo do Brasil com conexão em Paris, fica um destino caro para se alcançar, com passagens de valor mais alto e chegar pela capital francesa implica em um deslocamento de carro de mais de 500 quilômetros.
Em algum momento, porém, me dei conta de que uma forma mais barata de chegar ao Perigord seria vindo por Barcelona, trajeto que, ainda que mais ou menos semelhante á distância de Paris, permitiria conhecer no caminho várias cidades que me interessavam e, embora não tecnicamente na área do Dordogne, destino de muitos que se aventuram pela região, como Rocamadour.
Também são para Barcelona muitos dos vôos mais econômicos do Brasil para a Europa e, portanto, nesta viagem em 2026, a partir da qual escrevo a maior parte das informações aqui disponibilizadas, decidimos chegar ao Perigod por este caminho. Com paradas na ida em Girona, ainda na Espanha, e Rocamadour, já em solo francês, para conhecer o impressionante santuário local e pernoite em Carcassone na volta para Barcelona, cidade que também desejava muito conhecer.
Nosso inusitado grupo intergeracional era composto por meus pais, minha filha adolescente e eu. Portanto, organizei o roteiro de forma a contemplar tanto os interesses dos adultos "sêniors" como os de uma adolescente. E os meus, especialmente o de degustar as delícias de estar em uma região com tantos cenários pitorescos e história, além de uma culinária que intencionava não apenas degustar, mas experimentar colocar em prática, elaborando alguns dos pratos locais. Como fomos no inverno e as estradas e cidades estão muito mais tranquilas, os estacionamentos mais fáceis de utilizar, entre outras vantagens de estar na região fora de sua alta estação, escolhemos duas cidades do Perigord como bases para, a partir delas, visitar diversos locais, através de passeios curtos e pequenas viagens "bate e volta" que descreverei posteriormente.
Próximo à região de Sarlat-la Caneda, situada no chamado Perigord Noir, optamos por ficar 4 noites em Castelnaud-la-Chapelle, pequeno vilarejo aos pés do castelo que lhe dá nome.
Posteriormente, pernoitamos em Perigueux por 3 noites, utilizando a cidade como uma segunda base para conhecer pontos turísticos e vilarejos do Perigord Vert e Perigord Blanc.
Minha escolha destas duas cidades como base foi pensada, também, para dividir as duas estadias em diferentes tipos de experiência, a primeira delas em um vilarejo minúsculo e típico, com todo o sabor de autenticidade da região, e a segunda uma cidade de grande porte para os padrões locais, onde poderíamos encontrar restaurantes maiores, lojas e caminhar a pé pelos diferentes pontos a visitar.
Nosso roteiro aproximado pela região do Perigord
Dia 1
Chegamos a região, como mencionado anteriormente, a partir de Barcelona, onde alugamos um carro e nos deslocamos, já no primeiro dia, para Girona, com uma segunda parada em Rocamadour. Este local, embora tecnicamente parte do departamento de Lot, um passeio que muitos fazem como "bate e volta" a partir de cidades do Dordogne. A vista à noite, no entanto, é maravilhosa, especialmente de um hotel como o que escolhemos, voltado para o santuário. Então, a meu ver, ótima opção planejar ao menos um pernoite na cidade.
Seria possível, para o passeio da manhã, caminhar até o santuário a partir de nosso hotel, mas como o dia estava chuvoso, optamos por estacionar próximo mais perto (algo certamente só possível fora da alta temporada), já com as malas no carro, para seguir viagem depois da visita. Muitas das casas e pontos comerciais do vilarejo estavam fechados, mas no centro turístico nos deram todas as informações para acessar o santuário e, como sempre, fomos extremamente bem atendidos.
O Sanctuaire Notre-Dame de Rocamadour é um conjunto arquitetônico que inclui a basílica, cripta e capelas, em uma das quais se encontra a Virgem Negra de Rocamadour, escultura do século XII a qual são atribuídos milagres. Há também a inusitada Capela Saint- Louis - Notre-Dame de l'Ovalie, dedicada ao rugbi, com uniformes de times dispostos no local. Segundo a funcionária que consultamos sobre a curiosa demonstração de amor ao esporte, o rugbi é muito apreciado no sudoeste francês...Acima do santuário, seguindo por uma escada, há um castelo medieval restaurado no século XIX, que teve importante papel defensivo na Guerra dos Cem Anos, que ocorreu entre a França e a Inglaterra entre 1337 e 1453 e deixou marcas importantes na história do Perigord. Não chegamos a subir ao Château de Rocamadour, tanto porque o tempo parecia cada vez mais fechado e a chuva prometia retornar, como porque tínhamos ainda estrada a vencer até nossa próxima parada.
Cabe dizer que eu contava, em caso de muito frio ou tempo ruim, com o acesso pelo elevador que liga a cidade medieval ao santuário, mas descobri ao chegar que, apesar de ele existir, estava fechado no inverno. Algo a considerar se você está viajando com pessoas com mobilidade reduzida... Foi pura sorte conseguirmos uma trégua na chuva em tempo exato para subir e fazer a visita, em um dia em que, no resto do tempo, choveu quase ininterruptamente. Aliás, praticamente o único dia de tempo realmente ruim em toda a viagem, ainda que uma semana antes todos os rios da região estivessem transbordando, em função de chuvas intensas, que provocaram em diversas cidades estragos grandes e inundações, bem como o fechamento de estradas, algumas ainda interditadas quando chegamos à região...
Ainda fizemos uma breve caminhada pelo vilarejo e, de Rocamadour seguimos em direção a Lascaux, que pretendíamos visitar a caminho de nossa próxima base. Aqui, importante: nesta época do ano, os horários de visita são bastante reduzidos e preferencialmente os ingressos devem ser comprados com antecedência para evitar decepções!
Lascaux é certamente um dos locais mais importantes para os estudiosos da pré-história, não apenas na França, mas em todo o mundo. Localizada nas proximidades de Montignac, no vale do Vèzere, foi descoberta acidentalmente em 1940 por adolescentes da região e logo configurou-se como um dos principais acervos de pinturas pré-históricas, que datam de 17 mil anos. Há bisões, cavalos, cervos, entre outros animais, e alguns símbolos sobre os quais se especula o significado. as figuras humanas são praticamente inexistentes, com raras exceções. A caverna foi aberta ao público em 1948, mas fechada em 1963, devido aos fungos e danos causados pela respiração dos visitantes. Uma primeira réplica da caverna e suas pinturas foi disponibilizada ao público em 1983 (Lascaux II) e uma segunda réplica, muito mais fidedigna, inaugurada em 2016 (Lascaux IV, atualmente a mais frequentada). Existe ainda um acervo itinerante, denominado Lascaux III, que viaja ao redor do mundo com uma exposição sobre o sítio arqueológico e a caverna.
Dez anos antes, minha filha e eu havíamos conhecido Lascaux II, a primeira réplica da caverna original e, portanto, a complexidade e qualidade de Lascaux IV nos impressionou muito.
Exploramos cada detalhe também do museu adjacente e ficamos por um bom tempo no local - vale a pena considerar uma visita longa, a meu ver.
Gostamos de tudo e encerramos a visita quando, já passando da metade da tarde, um dos viajantes lembrou que ainda não tínhamos almoçado naquele dia... Comemos sanduíches já no caminho para Castelnaud-la-Chapelle, já que tínhamos horário marcado para pegar as chaves da casa alugada, um impressionante imóvel de 1777, com uma vista paradisíaca para o Dordogne, de um lado e o castelo, de outro, o que nos permitiu momentos muito agradáveis nas horas de descanso da temporada por lá.
A noite, os viajantes foram recompensados com um jantar incrível no restaurante local, degustando já alguns dos pratos típicos da região e vinhos e cervejas locais. Aproveitamos também para comprar alguns produtos para o café da manhã, na padaria (boulangerie) e no mercado de frios, carnes e embutidos (boucherie-charcuterie). O mesmo no qual ganhei açúcar, (além de diversas provas de queijos e presuntos, até escolher alguns). O estabelecimento fechou em seguida e, aqui, um pequeno conselho ao viajante de inverno... seja precavido e abasteça-se, não encontramos supermercados abertos em qualquer lugar, a qualquer hora, como frequentemente temos o hábito de contar existirem no Brasil... Por outro lado, com certa organização, os mercados, mercearias e supermercados regionais, em viagens como esta, são um paraíso para quem quer diminuir os custos com refeições em restaurantes, sem deixar de experimentar o que a região tem a oferecer de típico em termos de comidas e bebidas. Pra mim sempre uma delícia, porque adoro cozinhar e me aventuro - nem sempre com sucesso - a colocar em prática receitas locais. Mas também há grande oferta de pratos pré-prontos ou congelados que diminuem o custo da viagem sem exigir, daqueles que não gostam disso, colocar a mão na massa...
Dia 2
Depois de um café da manhã degustando os produtos adquiridos no dia anterior, subimos a pé até o castelo. A vista do local, com o rio Dordogne presente e parte fundamental do cenário, já vale a visita por si só...
Castelnaud-la-Chapelle, uma fortaleza medieval, também importante na Guerra dos Cem Anos, era, durante o conflito, apoiador dos ingleses, e se opunha ao Château de Beynac, fiel ao rei francês. De um castelo se pode ver o outro e, no cenário, fica evidente a dimensão de uma guerra de outros tempos... Castelnaud abriga um importante museu de guerra, com armas medievais, vestimentas típicas e também representações da vida nos tempos de seu apogeu. Aproveitamos para entrar no clima da época. Crianças de todas as idades se divertiram...
Eu e minha filha já conhecíamos Castelnaud da viagem anterior e foi como reviver uma experiência impressionante, imaginando o castelo em seu apogeu e os múltiplos percalços de seus habitantes, ao longo da história. O castelo, hoje em dia, conta com muitas atrações para crianças, como o camarim e cenários e espaços para brincar com Playmobil. Nós adoramos...
Importante: se você pretende visitar também os Jardins de Marqueyssac, como era o nosso caso, há desconto para a compra conjunta dos dois bilhetes. Apesar de ter essa informação, me esqueci disto na hora de comprar o ingresso e só a extrema boa vontade da atendente, posteriormente, nos permitiu ganhar o desconto... uma das amostras da gentileza do pessoal do turismo local! Bastou minha palavra, já que nem o ticket ou o recibo de Castelnaud eu tinha em mãos!
Depois da visita ao castelo, fizemos uma breve parada em casa para almoço e fomos visitar Beynac-et-Cazenac, com seu famoso castelo, do qual desfrutamos um final de tarde lindo e onde encerramos o dia.
No Château de Beynac também é possível conhecer um pouco mais sobre a Guerra dos Cem Anos, a rivalidade com o "vizinho" Castelnaud e a vida de Ricardo Coração de Leão, Simon de Montfort e Aliénor d'Aquitaine. Além de encontramos menções a Jeanne D'Arc, também personagem importante na história da Guerra dos Cem Anos.
Dia 3
Sábado, dia de mercado em Sarlat-la-Caneda (também é possível visitá-lo nas quartas-feiras), organizamos o dia para priorizar a visita a este e a cidade. O mercado é um verdadeiro paraíso para quem gosta de adquirir produtos para cozinhar receitas locais ou conhecer a culinária da região, bem como comprar lembranças e presentinhos para levar para casa.
Me esbaldei escolhendo o que pretendia utilizar para o jantar e petiscos para acompanhar, além de queijos como o famoso Cabécou, que já tínhamos experimentado em Rocamadour e vinhos. Arrisquei até mesmo comprar uma minúscula porção de trufas, visto que os preços não são nada convidativos, especialmente para nós brasileiros. Como me explicou uma vendedora local, também não são convidativos para os franceses e, segundo ela, um produto para usar em refeições especiais...
Aproveitamos para caminhar pela cidade, que já conhecia um pouco por ter usado como base na viagem anterior. Sarlat é a capital do Perigord Noir e uma cidade medieval muito bem preservada.
Como todos os lugares na região, foi cenário de conflitos na Guerra dos Cem Anos, disputada entre ingleses e franceses. O centro histórico é lindo e excelente como base para se visitar a região, se você prefere hospedar-se em um local com certa infra-estrutura e variedade de restaurantes, hotéis, etc.
Visitamos a Cathédrale Saint-Sacerdos, assim considerada desde 1317, embora construída a partir de edificações mais antigas. Com elementos românicos e góticos e posteriores acréscimos renascentistas, fica bem no centro medieval e é visita obrigatória para quem vem a cidade. A catedral tem uma grande torre que se pode visitar e, a seu lado está a Lanternde des Morts, também ponto turístico. Em seu interior, também existe um órgão histórico conservado, que data de 1752.
Ao terminar nossas compras, nos surpreendemos ao descobrir que nenhum de nós sabia onde tínhamos deixado o carro... Foi o membro mais jovem do grupo que no salvou, procurando em fotografias tiradas estabelecimentos e, com o nome deles, a localização na internet. Um detalhe, mas se você estiver de carro, lembre-se de anotar, ao menos mentalmente, onde o deixou!
Fizemos uma breve paradinha para deixar os produtos comprados e aproveitar uma refeição leve em casa, já degustando nossas aquisições e, a tarde, fomos visitar os Jardins de Marqueyssac.
Além de arte em forma de elegantíssimos projetos de jardinagem, também se pode apreciar, do local, uma vista linda da região, com diversos pontos turísticos, como castelos e cidades que fazem parte do roteiro do viajante que vem à região, como Roque-Gageac, além de rios que a banham.
A noite, nos aventuramos na cozinha e o resultado foi um improvisado macarrão com queijo e trufas com couve de Bruxelas, além de um magret de canard (peito de pato), que a não ser ter disparado, em seu processo de elaboração, o alarme de incêndio, deu razoavelmente certo!
Mais um detalhe a observar: abrir as janelas (apesar do frio que a essa hora estava perto de zero graus), ao cozinhar, se você não quiser que a pequena vila, de menos de 500 habitantes, na qual você está hospedado, seja despertada à noite por suas experiências na cozinha! O jantar, se não nos garantiria uma estrela Michelin, no mínimo foi divertido... Como entrada, ainda degustamos com o pão típico francês (que obviamente não é o que chamamos de pão francês) o famoso foie gras e um Monbazillac, vinho licoroso que harmoniza perfeitamente a iguaria mais famosa (e polêmica, diga-se de passagem) da região.
Dia 4
Iniciamos o dia com a experiência de assistir a uma missa católica, de que meus pais queriam participar (e eu fui por curiosidade), em Cénac-et-Saint-Julien, que serviu para praticar a escuta do francês e presenciar a comunidade local em um momento cotidiano. De lá, fomos passear em Domme, praticamente deserta, mas não por isso menos impactante pela sua atmosfera e ruas quase cênicas. É uma pequena vila, mas bem famosa entre os turistas da região por sua beleza.
Situada no alto de um promontório natural com cerca de 200 metros de altura, de lá também se desfruta de uma bela paisagem, com o rio Dordogne abaixo, no dia ainda bastante cheio pelas chuvas recentes.
A tarde, fizemos um passeio por Roque-Gageac, que é linda e permite uma caminhada deliciosa pelas margens do Dordogne. A cidade é, por muitos, considerada uma das mais belas vilas da França.
Visitamos a região em um período de cheia do Dordogne, mas em outras épocas do ano, uma das possibilidades em Roque-Gageac é fazer um passeio de gabarre, barco tradicional que antigamente navegava pelo rio.
Com o dia se aproximando do final, ainda dirigimos até o Château des Milandes, famoso especialmente por ter sido a residência da artista negra americana Josephine Baker, que nele viveu de 1940 até 1968 e onde criou seus doze filhos adotivos, além de atuar como membro importante na luta contra o nazismo e a oposição ao regime de Vichy, que dividiu a França na Segunda Guerra Mundial e colocou uma parte importante do território sob administração direta de Hitler. Por sua atuação neste período da história, Josephine Baker recebeu condecorações e reconhecimentos como a Croix de Guerre, a Médaille de la Résistance e a Légion d'honneur.
Para os que gostam de aventuras, hoje em dia há no local, além da visitação, peças teatrais contando a história de Josephine e do castelo e inclusive um "escape" sobre os segredos de Josephine, com a espionagem e elementos da guerra como tema.
Estava próximo o horário de fechamento quando chegamos e não pudemos fazer a visita, mas o passeio até lá já valeu o caminho...
Dia 5
Partimos de Castelnaud-la-Chapelle rumo a nossa segunda base, Perigueux. No caminho, aproveitamos para conhecer vários locais. Alguns pelos quais apenas passamos, como Saint-Cyprien, valem um passeio e deixaram a vontade de "quero mais", a serem revistos em outro momento. Nós optamos por parar em Le Bugue, que desejava muito conhecer, por ser o cenário para a cidade de Saint-Denis, do personagem de Martin Walker. Foi muito legal passear pelo centro da cidade e imaginar Bruno em seus locais de praxe, em suas aventuras e interações com a população local.
Almoçamos em um restaurante super gostoso, o Brasserie Oscar, às margens do rio Vézère e o "menu", mais em conta de toda a viagem e, nem por isso, menos saboroso: 16 euros, com entrada, prato principal, sobremesa e vinho! Para os que não estavam dirigindo, por que apesar de não ser proibido na França (atualmente, o permitido é aproximadamente equivalente a uma taça de vinho), tivemos esse cuidado durante a viagem...
Para os que viajam com crianças, a cidade tem algumas atrações especialmente interessantes, como o Aquarium du Périgord Noir, considerado o maior aquário privado de água doce da Europa, adjacente ao qual existe um parque que também atrai aos pequenos.
De Le Bugue, fomos visitar a Gouffre de Proumeyssac, uma impressionante gruta com formações geológicas que já conhecia da viagem anterior e que queríamos muito rever. Mais uma vez, só a simpatia e boa vontade dos "perigordinos" tornou a experiência viável, porque estávamos com o tempo muito apertado e, entre encontrar o estacionamento e chegar à area de acolhimento do local, teríamos perdido a última sessão de entradas se não nos deixassem entrar atrasados. Hoje em dia não é mais possível fotografar dentro da caverna, mas tínhamos registrado a grandiosidade do local na viagem anterior, quando isso ainda era permitido...
A visita é super interessante e facilmente nos transporta a 1907, quando a gruta foi aberta para o turismo e nela se chegava através de uma espécie de cesto, içado por cavalos através de um buraco na terra.
Ainda visitamos, a caminho de nossa última base, Les Eyzies e o importante Musée national de Prehisoire, um dos mais importantes sobre o tema e no qual se encontra a famosa escultura L'Homme Primitif, que frequentemente vemos em brochuras turísticas sobre o Perigord e os sítios arqueológicos da região.
A cidade é super bonitinha e muito interessante, com paredões de pedra emoldurando o cenário, e senti não ter mais tempo para revisitá-la com calma.
A noite caía quando chegamos a Perigueux, capital da região e já situada no Perigord Blanc. Demoramos um pouquinho até encontrar o apartamento alugado e nos instalarmos, mas ainda a tempo de fazer algumas compras para as refeições na "base" e aproveitar o entardecer as margens do L'Isle, rio que corta a cidade e na beira do qual nos hospedamos.
Dia 6
Resolvemos aproveitar o magnífico dia de sol para ir a Brantôme, a "Veneza do Perigord" Vert, famosa por constituir-se praticamente como uma ilha do rio Dronne, que conhecemos em seus momentos mais caudalosos, pela cheia recente.
O lugar é lindo e foi um dos meus passeios preferidos na região. Caminhamos por um bom tempo pela cidade, explorando as margens do rio e as ruazinhas, quase desertas nesta época do ano.
Também visitamos lá a Abadia de Saint-Pierre, datada de 769 e famosa por sua imponência e por ter uma das torres mais antigas do país.
Fizemos uma refeição leve em um dos poucos estabelecimentos abertos na pequena vila e voltamos para Perigueux parando no caminho em Bourdeilles, ainda às magens do Dronne, onde visitamos o "château" de mesmo nome e em cujo local se situam, lado a lado, um castelo renascentista do século XVI e uma fortaleza medieval do século XIII, ambos abertos para se conhecer e pontos turísticos muito interessantes.
Vale a visita, o local é muito agradável e bonito e aproveitamos para visitar sem pressa, relaxando.
Dia 7
Meus planos originais incluiam ir neste dia a Bergerac, na região do Perigord Pourpre, aproveitando o caminho para algumas aquisições e degustações em vinícolas próximas. Sem dúvida teria sido uma ótima pedida e pode ser legal incluir no roteiro. Especialmente para os que gostam de vinhos, valem as visitas aos Chateaud de Tiregand e de Monbazillac, vinícolas conhecidas e apreciadas na região. Mas estávamos cansados de viajar de carro e resolvemos optar por passear a pé por Perigueux, aproveitando o imenso mercado espalhado por toda a cidade e caminhando sem pressa por suas ruas. As "jovens" do grupo viram apenas o finalzinho, mas os "sêniors" acordaram cedo e ficaram impressionados com a dimensão do evento local!
Fomos conhecer a Cathedrale Saint Front, cuja silhueta se evidencia em vários pontos da cidade e da qual tínhamos uma linda vista também de nosso apartamento, emoldurando o L'Isle.
Almoçamos ao ar livre, no Halle du Coderc, um mercado no coração da cidade, aproveitando o solzinho de inverno (na mesa oferecida generosamente pela frequentadora do restaurante!) e para degustar, harmonizado com um vinho local, um cassoulet perigordine, um dos meus pratos franceses preferidos, uma espécie de feijoada branca que inclui em sua preparação carnes diversas e que, em alguns momentos, me aventurei a fazer em casa.
Bom, não é bem a mesma coisa que comer olhando para as ruazinhas medievais do centro de Perigueux...
Visitamos rapidamente o MAAP (Musée d'Art et d'Archéolgie du Périgord), o museu mais antigo do Dordogne, com inauguração em 1835 e grande acervo de objetos da pré-história e da arqueologia romana, já que foi sobre uma cidade desta origem, a antiga Vesunna, que a cidade surgiu.
Mas, principalmente, caminhamos muito pelo centro histórico, com seu famoso carrossel e ampla oferta de lojas e mercados, onde aproveitamos para comprar souvenirs.
Quase no final do dia e já em clima de despedida do Perigord, descobri, em uma livraria, algumas das obras de Martin Walker. Curiosamente, não as encontrei em francês e o proprietário, um americano radicado na região, me explicou que apenas os quatro livros iniciais estavam traduzidos do original em inglês. Segundo ele, os habitantes locais tem certa resistência à visão da região por um estrangeiro... Se é o caso, grande injustiça, a meu ver, porque ainda que parcial, as obras fazem um excelente retrato do Perigord e certamente contribuíram, em boa parte, com o incremento do turismo na região!
Comprei um dos livros (apenas tinha esse em ebook), que justamente aborda, no enredo, alguns aspectos da música e cultura occitana, também dialeto local e que eventualmente se vê em nomes de ruas e estabelecimentos, assim como a herança dos trovadores medievais. Para "re"degustar em casa e lembrar da viagem depois, assim como uma amostrinha de foie gras, comprada para depois saborear em família!
E fomos para casa, aproveitando o cair da noite na cidade e o finalzinho da "temporada" no Perigord e a privilegiada vista de Perigueux da nossa sacada...
Sugestão de locais a incluir na região e arredores
Haveria ainda a opção de acrescentar outras tantas cidadezinhas do próprio Perigord (além de Bergerac) no roteiro pela própria região, bem como pontos de interesse que tivemos que deixar de fora, desta vez... Gostaria de ter voltado, por exemplo, a Font de Gaume, uma caverna com pinturas do Paleolítico que havia visitado na viagem anterior a região. Lá estão as únicas pinturas policromadas da época que ainda estão abertas a visitação do público, na França. O ingresso tem que ser comprado com grande antecedência e a entrada no local é bastante restrita, para a conservação das pinturas. Conseguimos por pura sorte, quando a conhecemos, visto que era baixíssima temporada e haviam sobrado algumas vagas em um grupo que iria entrar na caverna. Foi uma experiência inesquecível.
Também não voltamos desta vez a La Roque Saint Christophe, um sítio troglodita situado em uma falésia com grutas nas quais viviam homens de Cro-Magnon, transformado em fortaleza na Idade Média. Há várias reconstruções do modo de vida de nossos antepassados no local e, de quebra, a vista para o rio Vézère do alto é deslumbrante. Vale a pena e só não revisitei pela necessidade de fazer cortes no roteiro. E porque, confesso, me equivoquei com sua localização ao pensar no nosso deslocamento!
Há, além das mencionadas, inúmeras grutas e cavernas abertas à visitação, tanto com foco nas atrações geológicas (Grotte du Grand Roc e Grotte de Domme), quanto foco na pré-história, considerando a ocupação de longa data dos povos originários da região (Grotte de Rouffignac, Abri du Cap Blanc, Grotte de Villars e Grotte de Les Combarelles, para citar apenas algumas).
Também há castelos que não conheci, como o Château de Commarque e o Château de Jumulhac.
Teria gostado muito também de visitar o Maquis de Durestal, bosque com um circuito que mostra como era a vida dos membros da resistência, na Segunda Guerra Mundial. Esse estava no nosso roteiro, mas acabou simplesmente não dando tempo de ir no dia previsto! Aliás, a região foi super importante, neste momento da história ocidental e há monumentos e menções a vários heróis da resistência francesa em vários locais. Josephine Baker, ainda que americana, teve papel proeminente neste cenário, sobre o que se pode conhecer na visita ao Château des Milandes, como mencionado anteriormente.
Nós selecionamos algumas das atrações que mais queríamos conhecer ou revisitar, mas certamente faltaram muitas muito interessantes. Depois da estadia em Periguex, deixamos o Perigord e iniciamos o retorno a Barcelona, de onde voltaríamos para o Brasil. No caminho, desta vez, em "contrapeso" com Rocamadour e Girona, que havíamos visitado na ida, paramos em Carcassone, ainda na França e importante turisticamente, especialmente pela importante cidade fortificada considerada Patrimônio Mundial da Unesco de 1997. Uma bela despedida da França...
Também, no retorno para Barcelona, haveria a possibilidade de incluir cidades do departamento do Lot ou, no meio do caminho, visitar uma das tantas localidades possíveis nos Pirineus, algumas com estrutura para esqui e esportes de inverno. Não foi tarefa fácil montar o roteiro com as 3 paradas no caminho e o os 7 dias no Perigord , excluindo algumas das opções, mas fizemos questão de organizá-lo de forma a não se tornar excessivamente cansativo e permitir não simplesmente conhecer o maior número de cidades e pontos turísticos, mas degustar a região, o que é incompatível com uma quantidade excessivamente densa de locais a visitar e deslocamentos, a meu ver...
Os locais que faltaram conhecer ou rever são opções para outras viagens, talvez... O Perigord figura entre minhas regiões preferidas da Europa, raramente um local me dá tal sensação de que ainda muito haveria por explorar, se a ele voltasse repetidas vezes! Então, ficam a ser visitados ou revisitados diversos pontos da região...

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