Alsácia: um roteiro pela França, com pitadas de Alemanha
História e cultura da região
A Alsácia é uma região da França com muitas características que não nos deixam esquecer sua proximidade geográfica e cultural com a Alemanha, o que se pode perceber, fortemente, nos nomes das cidades e culinária (entre outros aspectos, como os sobrenomes dos moradores). Não é para menos. A região não apenas fica na fronteira entre os dois países, mas teve seu território disputado por ambos, em vários momentos da história. Habitantes hoje com mais de 80 anos de idade, foram, em suas vidas, alternadamente, franceses, alemães e novamente franceses, já que na Segunda Guerra Mundial a região foi anexada pelos nazistas à Alemanha. Diferente do que ocorreu com outras regiões, que mesmo sob controle alemão, após o Tratado de Vichy, não deixaram de ser território da França, a Alsácia se tornou, de fato, solo germânico, nesta época. Moradores passaram a ser considerados alemães e sujeitos às leis e convocações deste país. Inclusive para incorporar o exército germânico, servindo contra os "aliados" na guerra, um momento bastante duro na história da região. A região já anteriormente havia alternado seu pertencimento a um ou outro país, de forma que seus habitantes, ainda que hoje indubitavelmente franceses, convivem com muitas características alemãs. Portanto, mesmo devolvida definitivamente aos franceses no final da Segunda Guerra, não perdeu seu estilo e consonância com muitos aspectos da cultura germânica.
A Alsácia é famosa pelos vinhos e pelas cidades que parecem saídas de contos de fada. Eventualmente, foram mesmo utilizadas como cenários nestes, a exemplo de Riquewihr, Ribeauvillé e Eguisheim, que inspiraram a criação da Villeneuve, a aldeia em que vive a Bela da produção "A Bela e a Fera" da Disney, na versão de 2017.
Estive na região em diferentes viagens, selecionando de passagem apenas uma ou duas cidades que atravessavam o caminho em outros roteiros, ou percorrendo trechos da chamada "Rota dos Vinhos da Alsácia". Minhas observações sobre a região foram colhidas especialmente em uma viagem ao final de 2024, complementadas por outras anteriores, portanto. Nesta viagem, chegamos à região partindo da Basiléia e traçando, portanto, um roteiro saindo da Suíça e visitando a Alsácia do sul para o norte. Aliás, um aspecto pitoresco foi, quando de nossa estadia na Basiléia, alguns dias antes de iniciar "oficialmente" o trecho da viagem dedicado à Alsácia, visitar a cidade francesa de Saint-Louis, já nesta região, cruzando a fronteira em um passeio a pé.
Sobre a Alsácia e cidades a visitar
Um passeio pela região pode ser projeto para todo um período de férias, incluindo ou excluindo algumas das cidades e conforme, por exemplo, seu interesse em visitar vinícolas, vilarejos medievais ou castelos, que estão presentes ao longo de toda a região.
Estrasburgo é a capital e Colmar, Riquewihr, Ribeauvillé e Eguisheim são algumas das principais cidades, mas praticamente qualquer vilarejo da região vale a visita!
As cidades da Alsácia são todas próximas e, portanto, se você quiser escolher apenas uma como base, fazendo passeios a partir dela, Estrasburgo é, a meu ver, uma boa opção, com ampla oferta, para todos os bolsos e estilos, de hospedagem e gastronomia. Também está nesta cidade o principal aeroporto da região, portanto, ponto de partida e chegada de muitos turistas que percorrem a Rota dos Vinhos. Sem dúvida, é possível visitar a região sem carro, contratando passeios para vinícolas e diferentes cidades. Mas se você dirige e alugar um carro não é um problema, esta forma de locomoção enriquece o passeio, permitindo saborear paradinhas fora do roteiro oficial, mas nem por isso menos especiais. As estradinhas são tranquilas e o deslocamento já vale a pena por si só.
Roteiro com algumas principais cidades e pontos turísticos da região
Nós, nesta viagem em 2024, visitamos algumas cidadezinhas no trajeto entre Basel e Estrasburgo e outras posteriormente, já partindo da cidade em direção a Koblenz, nossa próxima parada maior, já na Alemanha. Foi daqueles deslocamentos tranquilos, logo após o aluguel do carro em Lorrach, fronteira da Alemanha com a Suíça (íamos devolvê-lo em Berlim e a retirada e devolução no mesmo país é significativamente menos onerosa, então atravessamos a fronteira entre os dois países de transporte público para alugar o carro já em solo alemão). Dirigimos sem pressa, degustando a vista da própria estrada e os múltiplos vilarejos que encontramos pelo caminho. Há estradas boas e também pequenas estradinhas entre algumas cidades que, se não ganham prêmios pela qualidade, permitem desfrutar de deliciosas paisagens, muitas vezes com longa extensão por entre vinhedos e, no nosso caso, paisagens em alguns pontos ainda decoradas com a neve, que tinha caído na noite anterior.
Como já conhecíamos a maior parte das cidades, optamos por nos deslocar mais ou menos ao sabor do vento (e da neve), transitando pelas estradinhas com a disposição de escolher para parar locais que tornassem a aventura possível, já que a região é bastante procurada, em dezembro, por seus famosos mercados natalinos e muitos estacionamentos municipais pareciam super cheios. Passamos por algumas das cidades mais conhecidas, mas também transitamos por pequenos vilarejos, que se sucedem nas pequenas estradas, sem maior apelo turístico, mas simpáticos e charmosos.
Aqui, nosso roteiro, de sul para norte, abrangendo basicamente a Rota dos Vinhos da Alsácia e localidades adjacentes, traçado com o Google Maps: Roteiro - Mapa.
Nossa primeira parada foi em Colmar, uma cidade muito charmosa e a segunda maior da região, com aproximadamente 70 mil habitantes. Também uma boa base para pernoitar e, a partir dela, visitar as demais cidadezinhas próximas. A cidade tem a sua Petite Venise, com inúmeros canais que a tornam especialmente poética e, como outras da região, tem vários locais para visitar (museus e igrejas, além do Marché Couvert - que apesar do nome tem uma parte aberta também). Mas vale por si só e, sem dúvida, caminhar por ela é a maior atração. Lembrávamos da cidade de uma visita anterior, com passeios deliciosos e tranquilos.
De Colmar, seguindo a Rota dos Vinhos, você chega a Kaysersberg, considerada uma das vilas mais bonitas da Alsácia, com cenários como a Pont Fortifiée, que cruza o rio Weiss e é um dos principais cartões postais da cidade. Também vale conhecer as ruínas do Château de Kaysersberg, do qual se pode ter uma vista linda da cidade e arredores.
Escolhemos almoçar em Riquewihr, que havíamos utilizado como base para a visita à região em uma viagem anterior. O contraste com a experiência de então foi surpreendente, desta vez a cidade estava completamente apinhada pelos visitantes e estacionar só foi possível pois conhecíamos ruazinhas próximas ao centro que sabíamos viabilizar a empreitada. Aproveitamos a cidade para absorver o clima festivo e poético, que inspirou cenários de filmes, e comprar iguarias típicas francesas e um vinho para brindar na noite de Natal.
A cidade também é cercada por vinhedos e há vinícolas que podem ser visitadas, dentro e fora dos muros, com a possibilidade de degustação dos inúmeros bons vinhos locais. O local também é conhecido pelas cegonhas, famosas habitantes da região. Mas no inverno, elas estão em viagens de férias e, portanto, só as encontramos nas múltiplas referências e souvenirs da cidade...
A próxima cidade especialmente turística no roteiro sul - norte é Ribeauvillé, também uma boa opção para quem escolher uma cidade para, a partir dela, conhecer as demais. O centro histórico é incrível, com suas duas torres famosas e cheio de lojinhas e cafés que convidam a paradas para degustar a atmosfera local. E, para aqueles dispostos a isso, com uma caminhada de aproximadamente uma hora, se chega aos castelos locais, Saint-Ulrich, Girsberg e Haut-Ribeaupierre, dos quais se tem lindas vistas.
De Ribeauvillé, dirigindo para o norte, você pode visitar, entre esta cidade e Obernai, o Château de Haut-Koenigsbourg, um local impressionante, com origens no século XII e do qual, como em outros na região, também se tem uma vista belíssima. Também tinha sido, para nós, em uma viagem anterior, um passeio muito interessante.
A última cidade especialmente turística da região é Obernai, que não tive a oportunidade de visitar, mas sem dúvida vale uma parada para aqueles que podem degustar a região com calma. Nós, desta vez, optamos por seguir direto para Estrasburgo, que pela sua importância e por ser capital da região, descreverei com mais detalhes.
Estrasburgo
A cidade de Estrasburgo tem aproximadamente 300 mil habitantes e se localiza nas proximidades do Reno, sendo, portanto, também parte de um roteiro que visite as principais localidades às margens deste. O Rio III, no entanto, é o principal personagem fluvial da cidade, com ramificações que dão a ela um aspecto "veneziano" e formam a Petite France, na ilha onde se localiza o simpático e mais característico bairro, com as casas em estilo enxaimel (muitas delas dos séculos XVI ou XVII), que, mais caracteristicamente, associamos à Alemanha do que à França.
Se você conseguir ficar próximo da Petite France, estará na região mais charmosa e típica da cidade. Mas em época de Natal, a logística para acessar de automóvel, por exemplo, exige mais autorizações do que você precisaria para entrar no Pentágono, de forma que vale ficar nas proximidades mas não exatamente nela. Nós ficamos em um apartamento alugado na Place d'Austerlitz, a curtíssima distância da principal ponte para cruzar o canal e chegar a Petite France e, portanto, localização perfeita para flanar sem pressa por todas as ruazinhas desta, sem a dificuldade de chegar e sair de automóvel (que nos dias na cidade, diga-se de passagem, ficam melhor na garagem, já que andar a pé por ela é simplesmente delicioso).
Ouvi muitas vezes, de viajantes brasileiros, que Estrasburgo, a capital da Alsácia, não era uma cidade tão interessante e que valia mais a pena priorizar os pequenos vilarejos. Portanto, me atendo a esta idéia até então, só fui conhecer a cidade em 2024, e minha opinião a respeito dela não poderia ter sido melhor. Amei Estrasburgo!
De fato é uma cidade grande, mas isso em nada tira seu charme e, inclusive, a torna um bom ponto de partida para conhecer outras próximas. Passei na cidade o Natal de 2024, algo que pareceu bastante apropriado e mostrou que a cidade faz jus ao título de "Capital do Natal", o que sem dúvida não pode ser ignorado na minha impressão da mesma. Nesta época, os mercados natalinos, que na França são chamados Marché de Noel, tomam praticamente todas as principais regiões da cidade, de modo que, para quem gosta desta festa, é o lugar ideal e uma boa opção para um Natal europeu. O Christkindelsmärik (Mercado do Menino Jesus) é, de fato, um dos mais antigos da Europa, remontando a 1570.
Estar em Estrasburgo nesta época do ano também permite degustar em cada um destes mercados natalinos muitos quitutes da culinária local e o vin chaud, vinho quente, que com denominação que varia conforme o país, está presente em todos os locais. Além de cenários muito alegres e com uma "vibe" muito característica do Natal europeu.
Confesso que, mais do que visitar especificamente pontos turísticos de Estrasburgo, optei por caminhar sem pressa pela mesma, me deleitando com as pitorescas e fotogênicas cenas às margens do Rio III e experimentando os quitutes da época natalina, disponíveis em todos as as partes da cidade, transformada, literalmente, em um gigante Marché de Noel, cuja gigantesca árvore de Natal está localizada na Place Kléber.
Mas, além da Petite France, certamente imperdível por si só em um roteiro turístico, alguns pontos são muito interessantes e não se pode deixar de visitá-los em uma estada na cidade. A Catedral de Notre-Dame de Strasbourg, obra gótica do século XV, impera na paisagem urbana, com sua torre única de 142 metros, e é um destes pontos. Do apartamento que alugamos, tivemos o privilégio de "conviver" com sua presença imponente na vista da janela.
Também na Petite France, você poderá visitar a Estátua de Gutemberg, na "Place" de mesmo nome, em que viveu, durante alguns anos, no século XV, o inventor da prensa.
Caminhando pela margem do Rio III, você chegará a outros pontos que valem a visita, como a Ponts Couverts e a Barrage Vauban.
No Palais Rohan, edifício barroco do século XVIII, você poderá conhecer, também, alguns museus importantes da cidade, como o Museu de Belas Artes, o Museu Arqueológico e o Museu de Artes Decorativas. Outros museus que valem a visita, enfocando a cultura local e a história de Estrasburgo, são o Museu Alsaciano e o Museu Histórico.
Vale ainda, especialmente com crianças, incluir no roteiro o Parc de l’Orangerie, no qual, além de fazer piqueniques nas proximidades dos lagos, se pode encontrar um pequeno zoológico.
O tempo de permanência na cidade depende, é claro, de seu estilo como viajante. Nós ficamos 3 dias (apenas para desfrutar o próprio local, fazendo passeios a pé) e, sem dúvida, mais tempo teria sido ótimo. Especialmente na época natalina, com múltiplas celebrações e ampla variedade de atividades. Para passar o Natal na Europa, um lugar perfeito, especialmente porque, como já comentamos em outra postagem, a data em muitos locais significa feriado total, no qual não se encontra absolutamente nenhum estabelecimento aberto, dificultando até mesmo compras de alimentos ou refeições em restaurantes. Como já havíamos vivido a experiência alguns anos antes, em uma pequena cidade da Alemanha, desta vez escolhemos uma cidade grande para celebrar a data, sem dúvida foi muito agradável e bastante estratégico. Mas, cabe ressaltar, a cidade fica super cheia de turistas, então se você estiver buscando paz e tranquilidade, no Natal, certamente não é a escolha ideal!
Gastronomia da Alsácia
Para encerrar este texto, não poderíamos deixar de abordar a rica gastronomia local, na qual, sem dúvida, a influência germânica tem sua marca. O Choucroute-Garnie, prato composto por chucrute com carnes, é bastante típico, assim como a Tarte Flambée, com bacon e cebola. Também é típico o Bretzel, pão, normalmente salgado, que forma uma espécie de nó.
Estamos falando de uma das regiões da França mais famosas por seus vinhos e, aqui, fica a escolha do visitante optar por degustar alguns dos muitos especiais da Alsácia, sendo os brancos, como o Riesling, o Gewurztraminer e o Pinot Gris, boas possibilidades. Eu, que confesso que nem de longe sou uma conhecedora do assunto, aproveitei para experimentar vários sem me preocupar muito com a "grife" de cada um!
A eaux-de-vie da região, uma espécie de aguardente francês, também é famosa, assim como algumas cervejas, sobre as quais não posso opinar pois não são minhas preferidas. Especialmente quando tinha vinhos maravilhosos como opção!
Na época de Natal, muitos pratos e guloseimas típicos desta festa também ganham os mercados e lojas, sempre com a possibilidade de acompanhamento do vinho quente, elaborado de forma um pouco semelhante ao nosso quentão, com especiarias e capaz de aquecer até a alma, em meses de clima caracteristicamente gelado. O Pain d'épice também é tradicional e os Bredele, em suas muitas variações, também fazem parte do repertório culinário da época.
Aproveitamos a parada em Riquewihr para degustar várias destas iguarias, em um almoço guloso e nada tradicional, caminhando pela cidade e, de quebra, adquirir produtos para nossa ceia de Natal: um vinho delicioso e, inclusive, um fois gras, típico não só da Alsácia mas da gastronomia francesa. Um daqueles pratos que, pelo custo, ficam para as datas muito especiais!
Quando visitar
E aí... você escolhe! Nós, que somos fãs de frio e adoramos o clima Natalino, optamos quase sempre pelo inverno e, de preferência, final de dezembro. Já é possível encontrar neve e saborear as delícias desta estação, mas ainda não está tão gelado, normalmente. Uma vantagem desta estação é, também, o custo da hospedagem, já que a região fica muito mais cheia no verão e a procura aumenta os preços, para o turista.
Mas sem dúvida, há os que fogem do frio a qualquer custo e, para estes, outros meses do ano certamente permitirão experimentar sabores e cores diferentes da região, assim como encontrar abertas algumas atrações que, no inverno, não se pode conhecer. Como as cegonhas, que nesta época estão em "casa", na região.
Seja qual for seu estilo, a Alsácia vale a visita e eu, se for possível, certamente gostaria de retornar, conhecendo locais que não tive tempo ou voltando a outros que deixaram ótimas lembranças...


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